Passei pela identificação e entrei no salão largo. Os corredores separados por fitas cinzas estavam repletos de gente do mundo todo. Ouvia muitas vozes, risadas, algumas pessoas com aquele sorriso cansado por estarem completando mais uma jornada, outras tentando passar um ar de superioridade, simplesmente por terem o poder de cruzar os céus com aviões, ou seja, pagar os altos preços das passagens. Começo de noite típico dos aeroportos, checagem de passaportes, perguntas de praxe.

Mas meu coração estava disparado. Quem notasse meu semblante, talvez diria “ansiedade por uma primeira viagem”. No entanto, eu ja tinha estado em muitos outros países, a trabalho ou a lazer, e algo que não me assustava eram os guichês de imigração, o balanço das aeronaves e a forte frenagem que se segue ao toque das rodas do avião na pista.

Enganava a mim mesma, dizendo que estava muito tranquila. Como um momento de pré-morte, comecei a avaliar alguns atos de minha vida, imagens do meu pais percorriam minha mente, ainda sentia efeitos dos abraços ternos das pessoas de que eu gostava – e conhecia – que com certeza ainda estavam ali do outro lado daquele muro, torcendo para que tudo desse certo na minha jornada. Me dei conta de que sim, apesar da minha personalidade muitas vezes egoísta, consegui cativar algumas pessoas e ter quem me amasse. E do outro lado desta viagem, encontraria o mesmo?

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Comecei a fazer uma lista mental do que tinha aprontado nos últimos meses. Na última semana, fui ao Luiz, o cabelereiro dos últimos quatro anos, retocar as luzes e ficar mais loira. Ele sempre me chamava de executiva, admirava-se com meu jeito firme e, mesmo diante do cheiro de quimica forte e zum zum de secadores, não parava de falar um segundo comigo. Se me via passando na rua um dia qualquer, fazia questao de me chamar e dar um beijo no rosto.

Também lembrei-me que fazia uns três meses que minha carga horaria de sono havia diminuído drasticamente. Recordo-me de noites em que deitei as 6 da manhã e acordei as 7:15 para um compromisso no trabalho. E fazia isso  com um sorriso no rosto. Nunca foi tão bom ficar sem dormir.

Eram noites de sonho, devaneio, entrega.

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A fila andava, uma japonesa bateu a mochila no meu braço e nao pediu desculpas, só olhou de leve. Havia TVs de plasma com um programa de esportes, mas sem som. Meu cérebro pulou para os problemas. Meu irmão me empurrando contra a porta, porque também queria usar o computador aqueles dias. Para ele, era difícil entender que estar online, para mim, era continuar a respirar. Também passei a comer mais rápido, às vezes mentia, dizia que ja tinha jantado só para correr para frente da tela. Um dia, minha mãe começou a ficar nervosa, chorou, implorou para que eu usasse minha mente. Eu chorava baixinho dentro do banheiro, enquanto ela, de fora, gritava que eu era a pessoa mais egoísta do mundo.

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Chegou minha vez. O funcionário da Polícia Federal, para minha supresa, era jovem e nao tinha um semblante sisudo. Questionou do meu visto, disse-lhe que era possível tirar no aeroporto do meu destino. “Ok, próximo”.

Caí direto nos gelados corredores de um free shop. Moças com vestidos esvoaçantes ofereciam pedacinhos de papel perfumados com a nova fragância de uma marca famosa. Na parte de eletrônicos, cheguei a namorar uma câmera digital, apenas US$ 144 dólares. Fiz até um vendedor me explicar suas qualidades, por um momento esqueci que nao estava ali à passeio ou compras. Minha vida estava para mudar drasticamente. Quando lembrei-me disso, achei aquela nova máquina digital extremamente inútil. “Obrigada, vou dar uma pensada”, respondi.

Na sala de embarque, veio o chamado para o vôo KL0553. Meu bilhete estava ali, em minhas mãos, como um tesouro. Seria um tíquete para a felicidade? Vi como sempre tomei atitudes pensando em mim e no que acreditava ser a felicidade. Nunca ouvi ninguém, nem mesmo meus pais, desde que era adolescente. Poderia ter evitado muitas besteiras, erros, mas cresci achando que era superior à média das pessoas, que minhas opções sempre seriam melhores do que atender a conselhos. E neste momento dava mais um passo em direção à minhas convicções, mais uma vez sem ouvir ninguém.

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Minhas lembranças voltaram quarenta minutos no tempo, quando na cafeteria do aeroporto, tiramos fotos todos juntos. Era dia 31 de dezembro. Mesmo sendo um dia difícil para meus pais, havia em todos um semblante feliz dessas festividades de final de ano. Eu estava neste vôo porque, depois de mudar a data da passagem duas vezes, foi o único em que encontrei vagas a preços acessíveis em alta temporada. Jé era oito da noite, depois de me virem embarcar, seguiriam para a praia, onde tradicionalmente comemoramos a passagem de ano. Não sei como foi a passagem de 2006 para 2007 para eles. Prefiro imaginar que tenha sido como todas as outras: aquele misto de felicidade por deixar os problemas de um ano para trás e torcer para que tudo de certo dali para frente, sentimento sempre misturado a uma tristeza por termos terminados mais um ano, um tempo que nunca mais voltaremos a viver. Para mim, 2007 começava com uma mudança muito maior e profunda do que a que vemos nos calendários.