Embarquei. Do meu lado, um casal tomava conta dos filhos, acomodados nas poltronas da frente. Os pequenos riam e faziam bagunça e, quando um deles, de cabelos bem loiros e bochechas rosadas virou para trás e sorriu para mim, deu-me a oportunidade de olhar para seus pais e puxar uma breve convsersa. Contaram que estavam voltando das férias na Argentina. Ele era brtiânico e ela ‘hermana’.

A conversa durou poucos segundos, e retornei para meu mundo. Sentada na janela, pude ver quando o avião subiu e um azul diferente cortou o céu. Era o espaço, a vida ficando para trás.

Deu meia noite. A pequena tela à minha frente mostrou fogos de artíficio coloridos, e uma mensagem de feliz 2007. Para mim nao era apenas um novo ano que comecava. Era uma nova vida.

Os comissários riam e se divertiam, serviram champanhe para todos, mesmo para nós da classe econômica. Eu recusei, porque já tinha me convertido e era muçulmana agora. E continuei sozinha, não celebrei, não tinha com quem celebrar, só com minha esperança, meu amor, minha coragem.

Com o mp3 no ouvido, chorei um pouco ao ouvir aquela musica do cantos libanês Fadel Shaker. “Ya ghaeyb”, que ironicamente significa “Quem está longe”. E assim fui pensando no futuro e já esquecendo do que eu fui no passado. Pela primeira vez tive noção da magnitude dos meus atos, como são poucos os que teriam esta coragem.

O vôo continuou deslizando pelos céus, passei por umas ilhas na África, depois França, conforme apontava o mapa que eu checava a cada minuto, como se pudesse contar os quilômetros que faltavam para chegar. Olhava pela janela e só via a escuridão, como um sinal de que agora não teria mais para onde correr, não teria pai e mãe para me socorrer ou dizer o que fazer nos momentos de dúvidas. Era eu por eu mesma, aos 23 anos me tornando adulta de verdade.

Dezenas de filmes estavam à minha disposição, também havia balinhas que eu poderia pegar a qualquer hora, segundo disse a comissária, lá no fundo do avião. Mas não me animei. Também só fui ao banheiro uma vez naquelas 12 horas. Quase 100% do tempo fiquei ali, sozinha, embargada naquela esperança.

A comida veio leve, sem gosto. Esta era uma viagem totalmente diferente. Estava indo mais longe do que jamais fora, e não sabia como aproveitar detalhes como o cheiro do avião, tentar descobrir a nacionalidade dos outros passageiros, curtir a comida com gosto de enlatada, ver filmes novos na telinha, verificar a cada cinco minutos a altitude e a velocidade da aeronave. Todos esses gracejos que sempre desfrutei, desta vez não tinham a menor graça. Porque meu objetivo não era só a diversão de conhecer algo novo. Eu estava viajando para me casar.

***

Em Amsterdan, o avião pousou delicamente, como que não querendo acordar aquela cidade, feita de quarteirões geometricamente alinhados. Acho que todos estavam ainda dormindo, afinal era 1º de janeiro e estava em uma das cidades mais boêmias do mundo. A festa de ano novo ali devia ser daquelas de causar ressaca por uma semana.

Saí do aviao sozinha, tentei ouvir vozes em português, alguém que, talvez, também tivesse uma longa espera pela frente. Minha conexão era de 11 horas e eu não sabia como ia aguentar todo este tempo desconectada do mundo.Vi uma garota com o passaporte brasileiro nas mãos ainda nos corredores de Schinpol, cheguei perto e perguntei se era brasileira. Ela só disse que sim e virou as costas, seguiu com sua vida. Eu parei na passagem movimentada, sentindo o ir e vir de toda aquela gente ocupada, feliz, correndo. Mas eu não tinha pressa, ninguém me esperava ali na saída dos vôos internacionais, ainda estava sozinha.

Segundo me disseram, o Schinpol e o maior aeroporto da Europa. E deve ser mesmo, e também o pior. Não consegui completar uma ligação. Todos os orelhões pediam cartão de crédito. Tinha meu Visa Platinun, com um incrível limite, mas nenhuma daquelas máquinas estúpidas me entenderam. Tentei a telefonista: “Este numero nao existe, senhora.”- a atendente disse. “Como? Se durante quatro meses liguei para este numero?” – eu questionava.

Resolvi sair do aeroporto, quem sabe umas quatro horas andando pela cidade não fazem o tempo correr mais rápido. Fui comprar as passagens e encontrei os guichês amarelos vazios. Uma senhora que fazia o atendimento me disse que eu poderia já pagar a ida e a volta. Deu seis euros.

Desci a rampa feita daquele piso de bolinhas pretas, o mesmo que tem no metrô de São Paulo. Aonde estavam todas aquelas pessoas agora? Estava tudo vazio, e mesmo quando entrei num vagão, ninguém mais o fez. Fiquei ali, sozinha, enquanto o trem escorregava gostoso pelos trilhos da cidade. Era minha primeira vez na Europa, mas não tinha ninguém para comentar minhas impressões. Tirei umas três fotos de mim mesma, mostrando a janela e aquela paisagem.

Fiquei olhando para aquela terra, a Europa. Via ruas bem asfaltadas, árvores modeladas, casinhas iguaizinhas a que tinha visto em Blumenau, uma cidade no Sul do Brasil cheia de imigranetes europeus. “Então isso é a Europa, coisas certinhas”, pensei. Vi um estacionamento de bicicletas, pichações nos muros. E muito silêncio. Onde estavam as pessoas? A cidade não tinha vida, passei 20 minutos naquele trem e pelas ruas que passei, contei 2 ou três carros, não vi uma pessoa sequer andando. Acho que tinha me esquecido que ainda era plena manhã do primeiro dia do ano, feriado.

O dia estava cinzento, mas saltei do trem com esperançaa de ver algo interessante. Ninguém, em nenhum momento, pediu para checar minha passagem. Poderia ter pego aquele transporte sem pagar um tostão e fiquei encantada com isso. No Brasil, com certeza este tipo de coisa provavelmente nunca dará certo. Acho que isso é Europa: lugares certinhos, lugares vazios, obediência as regras. Acho que mesmo sem ninguém cobrar a passagem, todos ali devem pagar sempre.

Na rua, finalmente enxerguei mais pessoas. Ainda era cedo, por volta de 11 horas da manhã. Com a festa da virada de ano, acredito que boa parte ainda estava em casa descansando. Fui arrastando minha mala de rodinhas pelo chao de paralelepípedos e ela fazia um zummm gostoso. Era uma barulhão e a cidade estava tão quieta que fiquei preocupada em chamar a atenção. Mas logo vi diversas pessoas também carregando este tipo de mala pela cidade e relaxei.

Fui andando sem rumo, sem mapa, nao tinha nada que eu quisesse ver ali. Só queria gastar o tempo. Só queria achar um cyber café, um computador com internet. Estava morrendo de saudades dele.

Andando sem mapa e sem rumo, comecei a passar por umas ruelas apertadas de Amsterdan. O chão estava avermelhado, recoberto de cacos de vidro, sujeira, papéis brilhantes. O cheiro foi ficando mais forte em alguns pontos, uma mistura de álcool com vômito, de farra, de noite bagunçada, de prazeres sem amor. As lojas estavam quase todas fechadas, mas dei um largo sorriso quando vi um restaurantezinho aberto com uma placa: “Falafel, halal food”. Já tinha comido falafel no Brasil, perto da mesquita do Brás tinha um lugarzinho que vendia sanduíches deste tipo. Senti que realmente meu destino estava sendo traçado.

Mas não entrei ali, continuei caminhando, queria achar uma loja com computador e internet. Tudo fechado e em algumas ruas pequenas tive até de carregar minha mala nas mãos. O chão estava tão sujo que fiquei com medo de que, de alguma forma, aquela sujeira chegasse ao meu Alcorão, que guardava ali dentro.

Nestas ruelas mais pestilentas, as lojas eram muito estranhas. Símbolos de maconha espalhados, partes íntimas feitas de borracha preta estavam expostas nas vitrines. Que tipo de gente compra essas coisas? Olho para frente, um cara – sera que era mendigo? – com uma roupa estranha cantava algo indecifrável. Olhou-me com seus olhos azuis, sorriu com o canto da boca e continou cantando e andando, jogando os cabelos longos de um lado para o outro. Fiquei com medo.

Entrei correndo num restaurante com paredes de madeira que vi ali perto e aparentava ser mais normal. Uma música alegre em inglês estava tocando,  mas não me lembro qual. A garçonete veio com um menu e um sorrisinho sem graça. Surpreendi-me que, até mesmo na Holanda, existe aquele ar desconcertado quando se encontra um estrangeiro. Aliás, como será que ela sabia que eu era estrangeira?

Coloquei minha mala de rodinhas bem perto de mim, mas precisava ir ao banheiro. Lembrei que desde São Paulo, umas 14 horas antes, não tinha ido ao toalete, já que mesmo no avião não desgrudei do meu assento tamanha ansiedade.  Estava na Europa e, por crer que era um lugar mais civilizado, larguei minhas coisas ali mesmo na mesa sem medo de ser roubada e desci as escadas para o banheiro, torcendo para que estivesse limpo.

Olhei meu rosto no espelho. Estava cansado, mas feliz. Fiquei distraída olhando os detalhes, a lâmpada de gás era igual aos banheiros do Brasil, o papel normal. Tinha sabonete também, nada de diferente. Voltei correndo para cima. Numa mesa ao lado da minha, tinha aparecido um homem de cabelo meio comprido e desarrumado. Também tinha olhos azuis, assim como a garçonete também. Será que todo mundo ali naquele país tinha olhos azuis? Pensei por um momento, eu não tinha dito nenhuma palavra até então, e mesmo assim sabiam que eu era estrangeira, apesar de que não me achava tão diferente deles assim, por ter cabelos mais claros e olhos verdes.

Quando me sentei, o homem estranho virou e sorriu para mim. Levantou a mão com um cigarro, como que fazendo um brinde no ar. Eu não estava afim de papo, ainda mais com um sujeito estranho daqueles. Ele retornou seus olhos para sua bebida e chamou a atendente. Aproveitei a deixa e apontei no menu o que queria. Por sorte, havia tradução em inglês. Foi um dos melhores bifes da minha vida, daqueles bem grossos e com pimenta rosa em cima. E muita batata-frita.

Comi rápido, abri um livro, aquele “Caçador de Pipas” e tentei ler, não queria ninguém olhando para mim e tentando puxar papo. Comer e ler ao mesmo tempo é muito chato, mas fiquei ali tentando esta manobra boba para não ter de olhar para o teto durante toda minha refeição. Terminei e veio conta, de 15 euros. Não me cobraram taxa de serviço, mas como não conhecia o costume de lá, deixei mesmo assim uns dois euros dentro da pasta para a garçonete. Não sei se foi pouco, não tinha olhado nenhum guia sobre Amsterdã para entender mais daquela cidade. Só sei que ainda me sobravam 27 euros para passar aquele dia.

Saltei para fora e o frio voltou a bater nas minhas orelhas. Acho que estava perto de zero grau. Ou minha falta de costume para frio me fazia parecer isso. Só sei que tive de comprar luvas, minhas mãos doíam. Continuei andando e nao encontrei nenhuma cyber. Ouvi dizer que Amsterdã era uma das cidades mais conectadas do mundo, mas deve ser so Wi-Fi, pobres como eu, sem lap-top, ficam ao Deus-dará.

Andei por mais 30 minutos, o cheiro de bebida e vômito continuava a pairar no ar. Vi mais lojas com símbolos de maconha, casinhas com afrescos brancos, aquela arquitetura bem típica e certinha da  Europa. Cansei, nao tinha nada naquela cidade que eu quisesse ver. Corri para a estação, peguei o trem para o aeroporto.

Não havia passado nem três horas em Amesterdã e, definitivamente, tinha eleito aquela como a cidade mais chata do mundo. Mas quem sabe numa outra oportunidade, onde não chegue em plena manhã de feriado e com o coração da boca de tanta ansiedade, minha impressão de lá mude.

Fiquei feliz de voltar ao aeroporto. Gastei mais 40 minutos tentando completar uma ligaço, sem resultado. Resolvi entrar na area de embarque. Se era para esperar mais 6 ou 7 horas, que fosse já em frente ao portão por onde eu pegaria o segundo avião. Entrei ali com um fio de esperança e perguntei de novo ao guarda se não havia nenhum computador com acesso à internet naquele aeroporto. Ele me disse “sim, claro, vá ao ‘comunnication center’”.

Caramba, era o décimo guarda que perguntava a mesma coisa, e só agora um me deu a luz. Corri para lá e achei os benditos computadores. Não me importei nem um pouco em pagar 9 euros por uma hora de conexão. Sentei ali, fiquei online. Foram as duas horas mais felizes da minha viagem. Não estava mais sozinha. Paguei mais 9 euros, so para poder curtir aquilo um pouco mais. Meu amor estava online, acertando os últimos detalhes para me buscar no Cairo, quando eu chegasse.