A hora do embarque estava próxima. E a cada minuto que se arrastava, meu coração se enchia de desejo. Queria que tudo acabasse rápido e, ao mesmo tempo, curtia com extrema felicidade este momento de transição. Era como um barco atracado próximo a uma praia, que vai lutando lentamente contra ondas fortes para chegar até terra firme. Sentia-me pequena, mas brava o suficiente para alcançar qualquer coisa que quisesse em minha vida.
Não posso dizer que estava nervosa nestes momentos que antecederam meu último embarque, porque todos os gestos dele sempre me provavam que ele estaria lá me esperando de braços abertos. Não dava para ter medo, mas havia uma sensação de desconforto pela espera, ansiedade por querer ver tudo com meus próprios olhos e sentir aquilo tudo que antes estava apenas na minha imaginação. Seria que deveria abraçá-lo quando chegar? E um beijo? Acho que não, seria precipitado demais, ainda mais na frente de toda a família dele. Todos estas doces dúvidas pairavam na minha cabeça, e eu ficava com um turbilhão de dúvidas sobre o que fazer a cada instante.
Decidi que ia trocar de roupa. Estava com uma camiseta normal, porém fora do padrão do que eu gostaria de ser no Egito. Eu já havia me convertido há alguns meses, porém só coloquei um véu para cobrir os cabelos na hora de ir rezar na mesquita. Poucas vezes cheguei a sair coberta pelo ‘hijab’ nas ruas de São Paulo, mas lembro que sempre me senti bem com ele e gostaria de poder usá-lo a toda hora. No Egito, seria minha chance de mudar completamente o que eu era por dentro e por fora. De alguma forma, lá poderia expressar a nova mulher que eu gostaria de ser e, de uma vez por todas, deletar tudo o que tinha feito de errado na minha vida até ali. Faltavam apenas alguns milhares de quilômetros para o meu destino, mas sabia que muito mais do que a distância tornaria minha vida diferente. Seriam novos costumes, novas formas de comer e de amar. Estava caindo de cabeça em algo que eu imaginava apenas dentro da minha cabeça. Seria tudo igual ao que planejei chegando lá?
Com a vontade de mudança fixada em minha mente, fui ao toalete e retirei da mala de rodinhas minha bata azul clara cheia de bordados redondos. A comprei num daqueles dia quentes de verão no Brasil, onde sempre chove e faz calor ao mesmo tempo. Foi no Brás, perto da mesquita sunita, onde tinha pego meu certificado de conversão. Aquela rua era cheia de camelôs e gente andando apressada, mas lembro-me que neste dia nem a sujeira nem o empurra-empurra me chatearam. Tudo que fazia em nome da minha conversão e do meu amor só dava paz ao meu coração, mesmo que todo o resto se conturbasse em torno das minha decisão de partir.
Eu estava adiantada e entrei calmamente naquele banheiro púlbico do aeroporto. Não tinha ninguém mais ali, e fiquei um bom tempo checando minha aparência no espelho. Sorria, ficava séria, falava ‘Salam Aleikom’, treinando minha futura nova maneira de dizer oi. Será que ele gostaria de mim ao me ver ao vivo? Entro em dos banheiros e fecho a porta e troco de blusa, que combinou bem com minha calça jeans escura e o tênis preto. Ao pegar o desodorante no canto da bolsa, vejo o véu azul reluzindo ali, mas ainda receio em colocá-lo. Melhor não, vai que me a imigração ache estranho minha chegada no Egito assim e descubram que irei para lá só me casar? E se barrarem minha entrada? Algumas horas a simples sensação de que não o veria era aterrorizante, e preferi correr o menor risco possível até tocar suas mãos e saber que estava segura.
E eu contiua sozinha, talvez até estivesse falando sozinha e parecendo atordoada. Eram tantas idéias e coisas borbulhando na minha cabeça, que mal sei como aguentei todas aquelas horas sem desmaiar de cansaço mental e físico. Segui umas três horas antes do vôo para o portão de embarque. Ansiosa para que tudo passasse muito rápido, chequei exatamente meu portão e sentei-me bem em frente ao televisor que reluzia em letras claras o meu destino: Cairo. Aproximei-me do vidro e a aeronave já estava parada. E me irritei ao constatar que minhas pernas quase tremiam de tanta vontade de já poder ultrapassar aqueles portões e sentar-me no meu lugar.
Depois de cinco minutos ali, vi um homem vestido de preto, parecendo um segurança. Não foi possível me segurar e saltei na direção dele. “Quando o portão de embarque abre?”. Somente cerca de 30 minutos antes do horário de vôo, respondeu-me. De cabeça baixa e já cansada, deixei meu corpo cair em uma das cadeiras da sala de espera. Mordendo os lábios, fiquei olhando uma formiga passar bem perto dos meus pés. Tão pequena. Tédio.
Após alguns segundos observando o pequeno ser e por um curto período de tempo sem me lembrar da vida que viria a seguir, senti uma rajada de vento fresco perto de mim. Alguém passou perto e sentou-se na minha frente. Ao levantar o rosto, vejo uma mulher grande, de olhos bem claros. Ela estava toda vestida de preto e usando véu. Quase pulo para me sentar ao lado dela e conversar, mas lembrei que não estava em território conhecido, mas sim numa sala de aeroporto bem longe de casa.
Meu olhos viravam, eu tentando me segurar para não encará-la e talvez iniciar uma conversa. Seria ela egípcia? O que será que ela faria por lá? Só sei que era muçulmana e só por este fator já estava instagada a conhecê-la. Fiquei brincando com os dedos e mechendo no cabelo de maneira nervosa. A cada cinco segundos, desviava o olhar na direção dela, em busca de um encontro inesperado e no qual eu pudesse sorrir e talvez dizer oi.
Não demorou muito para que isto acontecesse. Dei um sorriso largo e ela acenou. Foi a deixa para que eu dissesse “Salam Aleikom, você fala inglês?”. Não só ela falava inglês, como era canadense e estava ali pelo mesmo motivo que eu: iria se casar com um egípcio! Em cinco minutos já havia me sentado ao lado dela e pedi que me contasse toda a sua história. Ela contou que era a segunda vez que iria para o Egito, mas que sua situação era delicada porque, no primeiro encontro, antes mesmo de se casar eles ficaram juntos e ela estava grávida. Agora, voltava para o Egito para oficializar a união, mesmo sem que família dele soubesse de tudo o que havia acontecido. Diferente de países ocidentais como o nosso, no Egito um filho antes do casamento pode ser até motivo de morte para uma mulher. Ela era corajosa ao voltar desta forma.
Eu também falei do que tinha vivido e como toda minha vida tinha mudado. “Não se preocupe. O homem egípcio, quando ama, será o melhor marido do mundo”, disse-me. E nossa conversa fluiu, azeitando o tempo e fazendo com que suas engrenagens corressem mais rápido, tanto que me assustei quando vi uma enorme fila já formada em frente ao detector de metal. Nosso vôo já havia sido chamado! Na fila para o embarque, maior supresa foi quando, juntas, as duas noivas, brasileira e canadense, olharam seus bilhetes e descobriram que se sentariam lado a lado no avião.
Passamos as cinco horas do vôo contando sobre nossas histórias e nos preparando para a vida de casadas. Falávamos alto e com alegria, a festa de casamento começava ali para nós. Duas estrangeiras sem medo, seguindo de formas diferentes o mesmo destino. ‘Insha Allah’ as duas terão um final feliz.
Olhei para baixo e já era noite. Na escuridão, só via um preto profundo do qual não distinguia nada. Na tela do assento, meu coração apertou quando uma pontinha do Egito surgiu. E grafada como se diz no árabe, “Askandariyah” apareceu como um ponto branco no mapa. Logo, vi pontos brilhantes de cidades. Era meu futuro brilhando. Com a altitude cada vez menor, passei a também enxergar diversos pontos verdes e lá de cima senti uma onda de calor forte passando pela espinha. Senti um conforto gostoso, estava chegando em casa.
Quando o avião tocou o solo, tudo parecia familiar para mim. Os mesmos carrinhos levando bagagens e combustível, as mesmas mensagens de despedida da tripulação. As portas se abriram e por meio da escada descemos direto na pista. Não havia cheiro diferente, o ar estava frio mas acolhedor. E vi as primeiras placas em árabes, e um homem gritando palabras incompreensíveis passou rindo por perto. Era cerca de 2 horas da manhã.
A fila da imigração era longa e fiquei com medo de novo de não ser aceita no Egito. Nada podia dar errado, agora eu estava muito perto! Ao chegar minha vez, depois de uma hora de longa de dolorosa espera. O homem egípcio pergunta: “Onde vai ficar?” E agora? Não tenho hotel, apenas um futuro marido esperando logo ali. “Em Alexandria”, respondi franzindo a testa de medo, como que prevendo que esta resposta não seria suficiente. Mas foi, ele disse “Ok” e carimbou com força os selos do meu visto. Finalmente, eu estava no Egito.
***
Ao passar pela imigração, perdi de vista minha nova amiga canadense. Corri para pegar minhas malas, que já estava rolando na esteira há tempos. Quando me aproximei, um homem chegou perto e quase tocou minhas mãos. “Let me help you miss!!”, falou num inglês esperto que me ajudaria. Eu respondi que se quisesse podia carregar, mas que eu não pagaria nada. Eu mal pisquei e ele saiu correndo atrás de uma turista de olhos puxados que passou ao lado, atrás de alguém que quisesse uma ajuda remunerada. Minhas malas eram gigantes, com trinta quilos cada, e arrastei com força para conseguir tirar a primeira da esteira. Outro homem chegou perto. “De onde você é senhora?”. Eu instintivamente respondi “Brasil”, sem nem olhar no rosto do sujeito. “Ah, mulher brasileira muito legal, eu vou te ajudar!”. Quase dou um grito, mas ele foi mais rápido e puxou minha outra mala, já a colocando rapidamente no meu carro. “Eu não quero ajuda, obrigada!”, falei brava. Ele insistiu que era de uma agência e pergunto onde era meu hotel, que já me levaria. Levantei a cabeça sem respondê-lo e me dei conta do turbilhão de pessoas passando rápido e correndo para fora da sala de desembarque. Pude ver que do outro lado uma massa de pessoas aguardava atrás de barras metalizadas os recém-chegados. E meu futuro marido estava ali. Tomei minhas malas de volta sem dar atenção ao homem que queria uns trocados e segui em frente. Dei dois passos e parei, tomada por uma timidez repentina. Quis rir sozinha e fiquei sem graça de chegar assim de repente já para me casar. “Ai, ai, eu sou louca mesma”, falei baixinho. Toda curvada de vergonha, fui empurrando o carrinho até a porta de vidro. E saí.
15 15UTC dezembro 15UTC 2008 at 9:27 pm
oiiiiiii Ma
parabéns pela iniciativa em escrever novamente, estou louca pra ler o próximo capítulo.
15 15UTC dezembro 15UTC 2008 at 10:09 pm
Ola Nossa pela primeira vez que estou vendo seu site estou adorando, espero agora pelo proximo capitulo, achei este site por acaso na internet.
Parabens
Maa salama
15 15UTC dezembro 15UTC 2008 at 10:56 pm
Estou a adorar. Fantástico.
Beijinhos grandes
Cris (Portugal)
16 16UTC dezembro 16UTC 2008 at 10:41 am
IXI, TA PARECENDO UMA NOVELA !!!
PRECISO DO PRÓXIMO CAPÍTULO, AIAIIAIAIIA
16 16UTC dezembro 16UTC 2008 at 10:09 pm
ai ai… wahashtany keter keter ya masr!!!
tá lindo amiga! parece conto de fadas
salam irmã!