Quatro meses antes, o dia estava chuvoso e eu reclamava do tempo escuro. Estava atarefada acertando detalhes para um encontro importante dali 20 minutos. O motorista da empresa já me esperava e eu ainda nao tinha terminado a parte final da apresentação. O computador simplesmente parou de responder ao meus comandos justo quando eu tinha mais pressa, e os ícones ficaram todos brancos. Eu sentei, olhei para a tela e com o queixo apoiado nas mãos tentei esperar alguns segundos. E nada. Minhas costas doíam pela tensão e eu tentava massageá-las. Não tinha dormido bem aquela noite, assim como muitas outras, preocupada com as tarefas que precisava desempenhar para talvez ganhar aquela promoção.

A campainha toca. Era o motorista avisando que já havia chegado e estava à minha espera. Isso significava que eu já estava muito atrasada. Corri para o quarto e peguei a bolsinha de maquiagem. Não teve jeito, o computador não quis colaborar e tirei o pen drive de qualquer jeito, apressada.

Ao sair de casa, uma gota pesada de chuva caiu bem na minha testa, respingando até minha blusa cinza e deixando uma marca bem visíviel por ali. Vai secar, pensei. O carro voava pelo asfalto inconstante de São Paulo, enquanto eu me maquiava sem ao menos olhar para o espelho. Foram tantos dias corridos, que eu ganhei este tipo de habilidade. Do tipo passar um lápis preto sem borrar, sem espelho, a 70 quilômetros por hora.

As gotas escorriam pelas janelas de vidro do carro, e algumas faziam uma marca comprida por causa do vento, como se tivessem bracinhos para se segurarem e não serem arremessadas ao ar. Meu estômago roncou, mas lembrei que almoçaria em algum destes restaurantes citados nos melhores guias mais tarde. Os faróis pareciam todos fechados e o motorista, acostumado com as pressa de gente como eu, logo entrou na pista destinada apenas aos ônibus, engatando a terceira, quarta, voando em meio ao trânsito.

Abri a bolsa e peguei o rascunho do meu discurso para rever algumas de minhas falas. Aquele negócio seria importante para a companhia e havia partido de uma idéia minha. Estariam todos ansiosos para minha volta no fim da tarde, querendo saber o resultado da negociação. Sorri para mim mesma e fiquei com vontade de ligar para alguém, alguma pessoa para quem eu pudesse dividir meu nervosismo e ficar mais calma antes de chegar até o cliente.

Com o celular em mãos, rolei toda minha lista de contatos. Não tinha muitas pessoas por lá. Li nomes e mais nomes, e percebi que não tinha intimidade suficiente com nenhuma daquelas pessoas, a ponto de querer dividir este meu momento. Vou ligar para minha mãe então, pensei. Deu caixa postal. Fechei o telefone e suspirei baixinho. Quando virei meu rosto novamente para janela, vi carros passando apressados, gente com guarda-chuva nas ruas. Tudo estava meio cinzento e gosto de São Paulo assim. Um friozinho batia de leve e a chuva deixava todo mundo despentado. E eu estava ali, como mais uma nesta massa de pessoas atarefadas e cumprindo deveres, dirigindo-me a mais uma negociação. Estava cumprindo meu dever e fazendo o que qualquer um gostaria de fazer. Será?

O farol ficou vermelho e um pedestre atravessou bem na minha frente. Ele falava ao celular e sorria largo. Quase ao pisar na calçada, escutei: “Tá bom amor, mais tarde eu te ligo.” Porque meu telefone não toca? Porque não tenho ninguém para ligar?

***

Vejo a escadaria de piso claro e logo um dos porteiros, vestido de marrom e com abotoaduras douradas, abre a porta para mim. Eu estava a um triz de derramar uma lágrima, atordoava com a constatação de que fazia muita coisa na minha vida, mas não tinha ninguém para destinar todos estes meus esforços. Outro dia, aquele moço do departamento jurídico tinha me chamado para tomar um vinho, mas fiquei com nojo dele desde então. Veio com aquela conversa furada: “Eu gosto de ter um relacionamento aberto com as colegas de trabalho. Vamos linda, sair para beber um dia e nos conhecer melhor”, propunha.

Dali um mês eu faria 23 anos. Estou nova ou velha? Não sabia responder esta pergunta, pois cada dia passava tão rápido que eu não era mais capaz de sentir o tempo. E cada segundo transbordava de minha vida, sem que eu tivesse algo realmente bom para guardar de lembrança. Sabia que estava conquistando muito e minha família tinha orgulho da pessoa independente que havia me tornado. Mas olhava para tudo, para aquele hotel chique na minha frente, para minhas roupas bem cortadas e pensava no que havia dentro de mim: nada.

***

Bom, a vida continua. Pisei firme no chão enquanto o funcionário do hotel segurava um guarda-chuva preto enorme que me protegia da água. Não havia nome na fachada, mas era ali mesmo o conhecido Fasano. Era engraçado como mesmo eu não pertencendo àquela classe social que freqüenta este tipo de local, eu já conhecia de cor aquele saguão. Também sabia exatamente onde estava escondido o toalete. Era só depois de ver o painel do bar recoberto de garrafas e os sofás macios de couro ocre, virar à esquerda e achar uma fenda escondida na parede de madeira. O banheiro tinha uma pia de mármore de linhas retas e as toalhas de pano ficavam perfeitamente dobradas do lado esquerda da pia.

O cliente, que me esperava tomando um licor e lendo um jornal americano, não levou muito tempo para fechar um pré-contrato. Almoçamos e mesmo como cardápio cinco estrelas na minha frente, a conversa morna e sem graça típica destes encontros não me fez sentir gosto de nada. Logo eu já estava de volta à minha mesa de trabalho.

O gerente chegou perto de mim e parabenizou-me pelo trabalho excelente, e disse que o diretor da área marcou uma reunião com todos às 16 horas. Abri os e-mails e nenhuma mensagem interessante havia chego. Saio para pegar um café e vejo os colegas se espremendo na janela do corredor para fumar. Alguns falam alto contando vantagens do trabalho que têm realizado, enquanto os novatos fazem pose de que sabem de tudo, mas arregalam os olhos de curiosidade para ouvir as histórias dos mais velhos. Eu já não era novata, conhecia o esquema do jogo, mas também não gostava de dividir o que fazia com ninguém. Eu era aquela funcionária quieta do canto, daquele tipo que trabalha bem, mas que não sabe fazer auto-propaganda. Também não gostava dos happy hours e não falava da minha vida, então no fim poucos me conheciam ou davam algum real valor para o que eu fazia.

Quando deu 15h30, não tinha mais tempo de começar um novo relatório, pois teria que parar logo adianta para a tal reunião com o diretor. Queria conversar com alguém, conhecer novas pessoas, mudar de ares e gastar estes 30 minutos. Então lembrei-me de um programa que tinha visto no trabalho do meu pai dias antes. Era um comunicador instantâneo, destes de internet. A diferença é que dava para achar por meio dele pessoas do mundo todo para conversar e usar microfone com boa qualidade de som.

Abri o site do programa e o download terminou rápido. Minha lista estava vazia, óbvio. Então coloquei meu ‘status’ como disponível para conversar. E nada aconteceu. Achei que talvez ninguém devesse usar este programa e olhei para a janela para ver se ainda chovia. Quando meus olhos bateram na tela de novo, luzinhas laranjas pulavam. Era pessoas de todo o canto do mundo dizendo oi, alguns já falando pornografia e outros mandando florzinhas virtuais. Tinha gente da China, Turquia e Holanda. Fui fechando uma a uma e já achando aquilo tudo uma péssima idéia. “Só vou encontrar gente sem nível”, pensei. E fechei o programa.

Um colega passa apressado por mim. “Vamos que a reunião já vai começar, está todo mundo indo para a sala preta.” Pego meu caderno de anotações, uma caneta e com passos preguiçosos chego até lá. O diretor estava sorrindo para todos e anunciou que algumas mudanças estariam acontecendo dali em diante, e que devido aos bons resultados do trimestre, algumas pessoas seriam promovidas. E falou meu nome. Eu estava na lista dos que passariam a ter um cargo melhor e mais independência dentro da empresa. Além disso, meu plano médico passaria a ser top e eu ganharia um bônus semestral caso atingisse as metas. Todo mundo aplaudia eu e os outros cinco colegas promovidos. Eu sorria e me sentia aliviada, nem as dores nas costas me incomodavam neste momento. Ao terminar a reunião, algumas pessoas chegaram perto de mim e me cumprimentavam e eu sentia que de alguma forma eu tinha importância para este lugar, talvez até para o país. Eu poderia fazer mais dinheiro, desenvolver novos negócios e mudar muita coisa. Quem sabe?

Volto para a mesa com os olhos brilhando de alegria. Quando sento na cadeira de rodinhas estofada, tudo desaba novamente. E preciso correr para o banheiro. Aquelas lágrimas que eu estava segurando desde o começo do dia agora escorriam pelo meu rosto. Mas não era choro de alegria. Era choro de dúvida, de mágoa por não saber o que fazer com tudo isso que eu estava conquistando do lado profissional. Mais uma vez, rolei a lista de contatos no celular e vi que as únicas pessoas para quem eu gostaria de contar as novidades eram meu pai e minha mãe.