Os meus olhos pesam, a pupila parece estar disforme, já que a tela do computador está embaçada. Estou na minha solidão, com planos de terminar um trabalho qualquer, meu ganha pão. Quando pensava na minha recente promoção, o sol até parecia brilhar mais forte, mas era só pensar no que eu faria ao chegar em casa que uma sensação de vazio me feria o peito.

Talvez por isso eu fosse daquelas funcionárias que ficava sempre até mais tarde no serviço. Não que eu estivesse atolada de trabalho, mas havia sempre um motivo para postergar aquele momento em que chegamos em casa e nos damos conta de que a vida é um tédio.

Não, eu nunca fui uma pessoa frustrada na vida pessoal e amorosa. Mesmo com minha forma dura de ser e minha personalidade pouco flexível, tinha amigos com quem dividi muitos momentos no passado, desde minha adolescência quando decidi ser roqueira e sktatista, até quando, na fase adulta, me tornei uma estudante compenetrada e focada em resultados.

Mas a forma com que as pessoas se relacionavam comigo havia mudado. Na inocência de quando somos jovens, os amigos se aproximam por gostos comuns, seja uma banda famosa que somos fãs ou um estilo de roupas. Quando crescemos um pouco, vemos que todos estes rótulos que criamos para nós mesmos e pelos quais nos diferenciamos de certas pessoas são uma grande baboseira. Gostamos de certas pessoas pelas mais diversas afinidades. Poso ser amiga de uma menina que sabe conversar sobre economia fluentemente, mesmo que ela seja uma patricinha que só use roupas de marcas. Nada me impede também de gostar de um colega de classe por conta dos textos fervosos que ele escreve sobre política, apesar de saber que ele fuma maconha no intervalo e eu sou totalmente contra drogas. Ou seja, a maneira com que buscamos parceiros para a vida ganha uma amplitude imensa e nem sempre é fácil definir as pessoas com quem podemos ter uma verdadeira amizade ou aquelas com quem as coisas são apenas passageiras ou movidas por algum interesse momentâneo.

Desta forma, cheguei aos vinte e poucos anos de idade conhecendo um monte de gente, mas sem saber quem realmente fazia diferença para mim. Eram muitas interferências e nem sempre eu soube agir conforme o momento. Sempre quis ser eu mesma com todos os tipos de pessoas, sendo dura e franca, mesmo quando não era o caso. E assim, cheguei em um ponto em que, para ser meu amigo, a pessoa precisava passar por muitas provas e atender demais às minhas expectativas. E me isolei por conta disso, pois só mais tarde descobri que ninguém vai mudar simplesmente porque eu quero.

***

Estava ali, parada em minha mesa de trabalho, quando a luzinha amarela pisca. Mas o que será isso? Vinha daquele programa de conversa que eu havia instalado antes da reunião. Achei que eu tinha fechado o programa, mas ao reiniciar o computador ele voltou a funcionar. Era uma menina da Alemanha, e resolvi iniciar aquela conversa, que puxou outras e mais outras. Também passei a fazer parte de diversos sites de relacionamentos, desde aquele famoso no Brasil até outros que só pessoas da Islândia deviam acessar.

E assim ganhei uma vida paralela, onde eu não precisava me entregar por completo e era fácil deletar quem não me interessava. Eu não ia encontrar estas pessoas pelos corredores do serviço, nem andando de ônibus. Talvez até econtraria, mas não saberia quem é. Os dias foram se passando, sem novidades para nada, enquando minha lista de amigos virtuais começou a crescer.

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Devaneio no ar, quase que num passe de mágica, a mensagem de longe chega até mim. Às vezes estúpida, vazia, pornográfica. Bloqueio o mal intencionado, adiciono o novo amigo, ou aquele velho que me apareceu do nada neste rede virtual – tão nova comunicação, tão entulhada de lixo e besteiras.

No meu mundo, as coisas se falavam é na cara, os sentimentos se expurgavam com lágrimas nos ombros amigos, o amor, sim, se resolvia com um beijo. Hoje a vida corre em bits e bytes, eu me sento todos os dias, a maior parte do tempo, numa tela que, no fim, nada mais é do que luz. Que num simples apertar de botão – o power – destruo.  Agora tenho o piscar amarelo na minha tela. Ou será laranja? Nem as cores virtuais são nítidas como as reais.

Mas o mundo, esse sim danado do jeito que é, ainda me surpreende. Nessas linhas invisíveis que passam por cabos, ondas, satélites e nem sei mais como, sinto o poder desta raça humana. Sedenta por socialização, mas presa ao mundo sem tempo para o contato, se entrega às conversas escritas, bilhetes jogados no ar, mas apanhados por softwares cada vez mais sofisticados.

Amigos entram, me contam suas vidas. Choro via palavrinhas escritas na pressa, erradas, sem me preocupar com o português. Destilo minha vida, meus amores, meu ácido. Encontro compreensão, xingo, ignoro e simplesmente bato um papo. Quando tudo me cansa e o relógio me mostra que já são quatro da manhã, digo um adeus rápido, fecho os programas e desligo a máquina de contatos. Estou sozinha novamente, mas amanhã volto.

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Mas um dia as coisas mudam de lugar. O que era irreal pode pular de repente para dentro da vida. E assim foi naquela tarde, quando me apareceu aquele rapazinho de Alexandria.

- Salam Aleikom. – enviou tímido.

- Aleikom salam… – respondi para o susto dele, já que eu supostamente era brasileira e não deveria saber estas coisas. Mas eu sabia esta resposta por conta de uma novela brasileira que falava de uns marroquinos.

- Wow, fico feliz de ouvir isso. Você é muçulmana? Se você puder gostaria de conversar com você.

Bloqueei. Apesar da maneira respeitosa com que falou comigo, poderia ser mais um daqueles que fica na internet só procurando besteira e mulher fácil. Eu já tinha falado com muitos árabes nestes meus dias de “pessoa virtual”, e a maioria não valeu a pena nem 3 segundos de conversa. Os alemães também eram grossos e os americanos rápidos para virem com segundas intenções. Italianos então, se eu dizia que era brasileira, era como ter a palavra “prostituta” estampada no meu e-mail. Acabava sempre conversando em fóruns do meu interesse e com garotas, que não tinham outro interesse senão fofocar sobre a vida.

Mas aquele moço não. Em 15 palavras ele citou algo que nenhum jamais fez. Falou de religião. Tá bom, sei que não é nada demais, mas de alguma forma fiquei com aquilo na memória. Fui para casa e voltei, passou o final de semana.

Um dia eu tive de ficar até mais tarde para terminar uma relatório e só à meia-noite meu pai me buscaria, pois iríamos viajar. Terminei o texto umas 8 horas da noite, quando decido abrir aquele programa de conversas. E vejo o rapaz online. Desbloqueio e, quase que no mesmo segundo, uma mensagem aparece:

- Salam Aleikom! Faz muitos dias que esperava para falar com você de novo… – disse-me.

Ele não tinha dormido nada aquela noite, já era de manhã no Egito, o país dele.  Seria verdade? Quem poderia ser aquele sujeito que, após apenas uma semana me conhecer virtualmente e trocar apenas uma dúzia de palavra, dizia que estava ali online me esperando para falar não sei o quê?

E começamos um novo papo. Contei quem eu era e de onde vinha. Mas logo ele me pediu um momento, pois iria rezar. Eu achei aquilo meio bizarro, pois no meu Brasil nunca conheci ninguém que pedia licença para rezar. Falei que tudo bem, mas queria que ele deixasse o microfone ligado, porque eu queria escutar como era a tal oração dele. Desconfiada como sou, queria ver se ia rezar mesmo ou era só papinho de moço “pseudo-santo”.

E assim foi, em instantes sons mágicos invadiram meus ouvidos. Parecia uma reza com música, mas ouvia sons de movimentos também. E eu não consegui mais esquecer aquele jovem que estava tão longe de mim, mas que com uma pureza de alma e diversas gentilezas virtuais, começava a a conquistar meu coração tão distante de qualquer sentimentalismo.

E coloquei ele no topo da lista. No dia seguinte, acordei mais cedo já pensando em conversar com aquela pessoa de novo. Corri para o computador com o coração acelerado, mas ele não estava online. Caí no mundo real e percebi que tudo isso só poderia ser loucura. Peguei o carro e fui para o trabalho antes do horário de serviço, me dando conta de como eu tinha sido boba em pensar em alguém que mora sei lá onde no meio do deserto.